Isolamento Acustico - Consigo fazer em casa? Dá pra gravar sem? : Magroove Blog

Isolamento Acustico – Consigo fazer em casa? Dá pra gravar sem?

Outubro 31, 2019 • 15 min de leitura

O isolamento acustico é praticamente uma obra dentro do seu homestudio. Vai exigir um pouquinho de conhecimento em engenharia, física e construção civil. Não existe fórmula padrão para o trabalho. Depende das medidas do espaço, do material do imóvel e do ambiente ao redor – quando falamos em homestudios, as variáveis são ainda mais numerosas. Mas pode ser realizado sem gastos exorbitantes! Sobretudo, isolamento traz tranquilidade para seu estúdio. Todos os seus profundos estudos em engenharia de áudio e a compra de bons equipamentos não são suficientes se suas gravações correrem o risco de captar ruídos externos. Até para a mixagem o isolamento é importante: ouvir com clareza e silêncio necessário as tracks reproduzidas nos seus monitores contribui demais para o sucesso da pós-produção.

E mais: como o próprio nome diz, o homestudio costuma ser dentro de casa. Certamente sua casa fica em uma área residencial e, além disso, você realiza outras atividades do cotidiano no mesmo imóvel. Então, pela paz na sua vizinhança e felicidade nas suas produções, um bom isolamento acústico é o arremate para que seu homestudio produza com perfeição.

Isolamento x tratamento

A primeira coisa a se atentar é a diferença entre isolamento e tratamento acústico:

  • Isolamento: afastar a presença de ruídos externos que podem atrapalhar as gravações e evitar que o som produzido dentro da sala saia dela. Também atenua os efeitos de outros ruídos e vibrações ocorridos dentro do próprio estúdio.
  • Tratamento: controlar as frequências para que a sala não seja muito “viva” (com reflexos demais) ou muito “morta”, seca em excesso. Objetiva-se explorar a boa audição e percepção do som produzindo, balanceando as frequências. Resolve problemas ligados a reflexão e reverberação através de materiais que promovem a absorção e a difusão de graves, médios e agudos. Contribui para a equalização das frequências refletidas, de forma a permitir uma captação limpa e equilibrada.

Isolar para quê?

Quando um objeto vibra, ele movimenta o ar ao redor. Esse movimento do ar interfere na trajetória das ondas sonoras produzidas no ambiente. Por isso o isolamento é importante. Ele não só evita a interferência de sons externos perceptíveis; o isolamento também possibilita o bom trânsito das ondas sonoras no local, prevenindo a sala de ser afetada pelas vibrações que chegam nas paredes, no chão e no teto. O procedimento vale ainda para o caminho contrário, evitando que o som dos instrumentos e vozes se projete para fora do homestudio, tranquilizando os vizinhos e otimizando a captação.

Quanto mais massa, mais isolado o espaço. A lei da massa diz que dobrar a massa de um isolamento equivale à redução de 6 dB. Para isso são utilizados materiais como cimento, madeira, tijolos, borracha e vidros.

Absorvedores

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Lã de rocha: facil manuseio, eficaz na absorção.

Produtos amortecedores e absorvedores também são utilizados no processo. Eles não isolam propriamente o local, mas convertem as ondas sonoras em calor, reduzindo a intensidade das ondas. Absorvedores dissipam o impacto sonoro que recebem, evitando que a vibração sofrida por uma estrutura de massa rígida (como a parede) seja transferida para a outra parede.

São produtos de baixo custo, simples instalação e manutenção e facilmente encontrados no mercado.

  • Espuma elastomérica: também atua como isolante térmico e por isso é bastante usado em ar condicionado, sistemas de climatização e produtos eletrônicos. Flexível, não mofa e é disponível em diversas espessuras.
  • Lã de vidro: composto de vidro e areia, apresenta textura porosa que segura e distribui as ondas sonoras. Pode ser aplicado em forros, paredes, divisórias, lajes e telhas metálicas. Também atenua a entrada de calor no ambiente. Pode ser tirado para limpeza. Resistente a fogo, umidade, fungos e bactérias. Não perde a capacidade de isolante acústica com o tempo.
  • Lã de rocha: fibra extraída de rochas basálticas e de outros minerais. Oferecida revestida em alumínio em um dos lados, filme plástico ou papel kraft. É bastante usado na construção civil e facilmente aplicado em superfícies irregulares. Quanto maior a espessura, melhor é a absorção. Recomendamos a partir de 50mm para home studio.
  • Fibra de coco: de fonte natural e renovável, placas de fibra de coco ainda são pouco exploradas por fabricantes do ramo no Brasil. O material é denso e fibroso e tem sido usado em forros de alvenaria, gesso e madeira, contendo ruídos externos.

O som da sua sala

Comece o processo de isolamento entendendo a forma com que o som é propagado na sua sala. Você faz isso medindo a pressão sonora do ambiente, com um aparelho chamado decibelímetro.

Cada material causa uma diferente perda no contato com a onda sonora emitida, como descreve a STC – Sound Transmission Class (Classe de Transmissão de Som).

Esse termo define o isolamento proporcionado por cada material para as ondas sonoras, na faixa entre as frequências de 125 e 4000 hertz. O valor não é cumulativo, isso é, não basta somar o STC de uma espuma com o de uma parede. A aplicação de uma material sobre outro gera um novo índice. A forma de instalação também influi no valor. Por exemplo, uma janela fixa tem STC superior ao de uma janela móvel. Confira alguns valores

  • Meio Tijolo = cerca de 30 dB.
  • Tijolo inteiro = cerca de 40 dB.
  • Tijolo duplo = cerca de 60 dB.
  • Porta de madeira = de 30 a 45 dB.
  • Janela com vidro duplo = de 40 a 50 dB.
  • Laje de concreto = de 40 a 50 dB.

STL

Outro sistema de medição usado em projetos de isolamento acústico é o STL – Sound Transmission Loss, ou Perda de transmissão sonora. Alguns profissionais preferem esse tipo de medida, por que ele especifica a faixa de frequência isolada por determinado material. Por exemplo, o drywall de 3,81 cm possui um STL a 125 Hz de 15 dB. Ambos os métodos devem ser aplicados já no local onde o material será instalado. Os valores variam de acordo com o ambiente.

O isolamento inclui toda a estrutura da sala: chão, teto, paredes, janelas e portas.

Tipos de ruído

Existem dois tipos de ruído: o ruído aéreo e o ruído de impacto.

  • Ruído aéreo: produzido no ar, alcançando espaços alheios principalmente por fissuras e passagens de ar. O som do aparelho de rádio, por exemplo.
  • Ruído de impacto: ocorre a partir do contato em alguma superfície – piso, parede, teto. Exemplo: o ruído de um martelo sendo batido. Esse tipo de ruído incomoda bem mais por que chega aos espaços adjacentes pela vibração que provoca.

Um estúdio produz os dois tipos de ruído. O ruído aéreo vem da audição de uma mix em monitores de referência, enquanto o ruído de impacto surge do bumbo da bateria sendo tocado. Não adianta então, tentar controlar o volume do som realizado no seu homestudio: deve-se isolar a superfície onde o som é produzido para que o impacto não gere vibração na estrutura e vedar todas as aberturas existentes no local.

Amortecimento

O amortecimento dissipa as vibrações provocadas pelas ondas sonoras, transformando-as em calor.

A técnica de amortecimento mais empregada é a aplicação de cola antirruído entre duas placas. A cola de marca Green glue é reconhecida como uma das mais eficazes do mercado. Basta espalhar o produto entre duas placas, feitas de materiais como drywall, madeira compensada ou MDF – fibra de madeira de média densidade. Paara cada chapa de 1,2 x 2,4 metros são necessários dois tubos do composto.

Essas placas são bastante versáteis e podem ser móveis. Como em home studios é normal gravar vários instrumentos, cada um de uma vez, as placas podem ser posicionadas em diferentes pontos, teto, parede, portas ou chão, de acordo com a captação a ser feita.

Dissociação

Consiste no bloqueio da passagem do som, através do isolamento das superfícies que sofrem o impacto das ondas sonoras:

  • Piso flutuante: composto de borracha em forma de U que, instalados sobre o chão, auxiliam na perda de transmissão. Retráteis e fáceis de usar, melhoram a definição de baixas frequências e evitam interferência de vibrações, normalmente mais perceptíveis pelo chão. Um dos mais populares é o U-Boats da Auralex.
  • Parede dupla: deixando uma lacuna de ar entre as duas paredes ou com espumas preenchendo esse espaço, afastam trepidações vindas de fora do espaço.

 Parede e teto

Por menos perceptível que seja, as paredes vibram com movimentos externos, afetando o chão e todo ambiente e o destruindo para a sua gravação. Claro, além da possibilidade de ruídos vindos de fora serem captados. É muito comum observarmos em estúdios caseiros a presença de materiais como cortinas, espumas, colchões ortopédicos, em frente às paredes, como forma de segurar o som ali dentro. Porém, para um isolamento realmente eficaz, é necessário construir estruturas de massa.

O ideal é erguer uma segunda parede. Geralmente a segunda parede é feita de drywall, ou gesso acartonado, uma chapa composta de gesso natural que pode ou não ser alicerçada por perfis de aço. Bastante usada em projetos de design de interiores, é revestida dos dois lados por papel cartão e utiliza pouca água, o que contribui para sua praticidade.

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A parede dupla recheada de lã de vidro é fundamental para o isolamento.

Parede dupla

Construir uma parede de drywall à frente alguns centímetros da sua parede original – que deve ser alvenaria – já ajuda a isolar o som que vem de fora e que vai de dentro. Porém, já que você começou, uma boa ideia é rechear esse vão entre as duas parede com lã de rocha. Aí sim você pode ter certeza de que o isolamento está ideal – pelo menos o das paredes. Nessa situação, a onda sonora não só precisa atravessar duas estruturas rígidas para vazar para outro ambiente, como também, ao se deparar com a densidade da lã de rocha ali entre as duas paredes, é dissipada em sua superfície.

Mas minha casa é alugada!

Caso você não possa providenciar uma parede na sua sala – imóvel alugado, por exemplo – uma boa saída seria construir uma parede móvel de madeira à frente da parede original. Não se esqueça da lã de rocha ou de vidro. Quanto mais material isolante, mais difícil o caminho para a onda sonora atravessar.

Piso flutuante

A trepidação no piso, provocada por uma bateria sendo tocada é o terror dos vizinhos. Se seu estúdio ficar em um prédio então, pobre vizinhança! Por outro lado, os movimentos que chegam ao seu estúdio pelo chão são facilmente sentidos no ambiente. Uma vibração transmitida do corredor pode ter influência sobre o pedestal do seu microfone, por exemplo.

O melhor a se fazer é “subir” o piso. Isolar o chão, construindo um novo tablado. Mas atenção: esses tablados de bateria, usados em palcos, são feitos de materiais mais frágeis e ainda sofrem os efeitos das vibrações ocorridas ao redor. É bom construir um piso flutuante de material resistente e preencher o espaço entre esse e o chão.

A opção em borracha é uma das preferidas por proprietários de homestudio, pela sua praticidade e baixo custo. É comercializada em pequenas peças em forma de U, possibilitando que você adquira o número conveniente para o seu espaço. É possível encontrar essa manta em materiais como poliéster ou substâncias ecologicamente sustentáveis, como borracha de pneus ou garrafa pet, transformada em lã. São ótimos amortecedores de vibração mecânica.

Faça você mesmo

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Piso flutuante caseiro.

Outra fórmula do tipo “do it yourself” bastante usada em estúdios caseiros mescla coxins de borracha, lã de rocha e compensado em madeira:

  • Posicione os coxins de borracha por todo o piso, a uma distância de  0,8m um do outro. Não esqueça de colocá-los em todos os cantos do espaço.
  • Preencha todos os espaços entre os coxins com lã de rocha. Não deixe sobrar nenhum vazio. A espessura ideal da lá de rocha é a partir de 64Kg/m3;
  • Coloque o compensado, com espessura de 2 cm, sobre a superfície e conclua com um carpete que cubra toda a madeira.

Isolamento acustico na porta

Como você vai dobrar as paredes, vai sobrar espaço para instalar uma porta dupla. Estão disponíveis no mercado modelos de portas acústicas, próprias para estúdios. Mas você pode construir a sua facilmente, gastando menos:

  • Pegue duas portas comuns, de madeira maciça.
  • Aplique lã de rocha ou lã de vidro entre elas.
  • Instale conexões de madeira, de uma para a outra, nas quatro pontas, formando uma espécie de caixa.

Algumas pessoas passam cimento no espaço entre as portas. Pode isolar bem, mas fica bem pesado.

Janela e passagens de ar

Depois de tudo isso, parece que o isolamento está pronto, certo? Não! As passagens de ar, por menores e mais insignificantes que pareçam ser, podem colocar tudo a ruir. Você precisa tampar tudo! A começar pelas janelas. Sim, é impossível ter janelas em um estúdio que pretende ser bem isolado. Esteja munido de:

  • Calafetagem Acústica: sela todo buraco ou vão ainda presentes na sala. Apresenta textura flexível e garante boa durabilidade. Ideal para frestas de porás e janelas, evita a entrada também de umidade e frio. É feito de silicone e se adapta bem a superfícies metálicas, madeira, vidro, concreto e cerâmica.
  • Fitas de vedações de espuma: melhor escolher as que apresentam maior densidade. Indicada para pequenas lacunas. Protege contra vazamento de água, sujeira e resiste a oxidação, mofos e raios ultra-violetas.
  • Veda Portas Automático – bloqueia aquele espaço que fica entre o fundo da porta e o chão, com acionamento automático para portas de madeira, alumínio, ferro e PVC. Quando a porta é fechada, o equipamento pressiona a borracha sobre o piso, impedindo totalmente a passagem de ruído, luz e ar.
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O veda porta afasta a interferência de ruídos vindos da fresta abaixo da porta.

 

Vidro duplo

Caso seu homestudio possibilite a separação da sala de gravação e da sala de controle você pode adaptar um vidro duplo, a partir de uma entrada entre as duas paredes. Quanto mais espesso o vidro melhor sua capacidade de isolamento. É recomendada uma leve inclinação entre esses dois vidros, entre 6 e 8 graus.

Ventilando a sala

Você deve estar pensando no calor que essa sala vai ficar, tão isolada e fechada. Pois então, o único jeito de ventilar ar dentro de estúdios é com o ar condicionado. Aí vão algumas dicas para você ficar de olho na hora de instalar um aparelho no seu homestudio:

  • Certifique se de que não há nenhuma frestra no local onde está colocado o ar condicionado. Essas fissuras promovem ruídos no próprio aparelho.
  • Posicione o aparelho em um local em que você grave pouco. A emissão de ar direto pode desafinar instrumentos de corda e até produzir pequenos “assobios” em contato com aberturas ou superfícies de instrumentos.

O ar condicionado do modelo Split é o mais indicado para estúdios. Ao contrários dos tipos de janela e centrais, eles não necessitam de dutos. Além disso, refrigeram espaços individuais e o compressor fica do lado externo, diminuindo a possibilidade de vazamento ruído.

Outros cuidados

Aparelhos eletroeletrônicos têm lá seus ruídos e eles podem aparecer na sua gravação quando você menos espera. Então aí vão algumas dicas para você deixar sua captação bem silenciosa:

  • Providencie divisões acústicas. Podem ser pequenas placas “sanduíche” mandeira/lã de rocha ou de vidro/madeira que você posiciona em diferentes locais a depender da gravação. Coloque atrás do cantor, por exemplo, ao redor da bateria, para que o microfone capte apenas o que você deseja.
  • Tente deixar o computador longe do microfone. Adquira extensores e cabos longos para isso. Outra opção é conectar seu computador a um tablet.
  • Instale suporte nos laptops. O calor e uma leve vibração dos laptops pode produzir um ruidinho insistente e inconveniente para sua produção. O suporte deixa o computador elevado em relação à mesa e mantem o equipamento refrigerado.
  • Adquira uma isobox: um rack que tem um silencioso refigerador contra superaquecimento e aciona alarme no caso de problemas.

 Se você possuir uma sala de controle, deixe tudo que faz barulho lá e faça as conexões passando cabos pela parede – claro, vede bem os furos.

Plug-ins para redução de ruído

Evite. Plug-ins de redução de ruídos acústicos captados na gravação comprometem a resolução e qualidade dos arquivos. Controlar o SNR gerado pela relação entre o dynamic range e o noise floor depende de outros assuntos, como estrutura de ganho, interface e DAW. O ideal é deixar a música soar sem nenhuma interferência!

Fones de ouvido 

Usar apenas fones de ouvido para gravar e mixar representam uma ilusão. Bem vedados, podem te dar a impressão de que seu som está sendo captado no mais absoluto silêncio. Porém, disfarça o efeito de vibrações externas e, principalmente, o vazamento da sua música para fora do home studio.

Se você trabalha apenas com instrumentos virtuais ou gravados em linha, que não necessitam de acústica para captação, você pode estar achando que dá pra controlar tudo no fone…será? Os trabalhos de mixagem e o de masterização (caso você mesmo execute essa função) pedem o uso de monitores de referência. A reprodução sonora em contato com o ambiente possibilita outras percepções auditivas que o headphone, isolado, camufla.

Cada espaço tem características próprias. Por isso, são necessários muito tato e observação para isolar seu home studio com eficiência. Como você percebeu, com produtos que cabem no orçamento e mão na massa, você alcança bons resultados. Aproveite essas dicas e erga seu homestudio a um novo nível de excelência!