Loudness - Do botão do receiver às plataformas de streaming : Magroove Blog

Loudness – Do botão do receiver às plataformas de streaming

Julho 20, 2019 • 8 min de leitura

Na última década, o momento da masterização e finalização de áudio tem envolvido um novo e importante conceito. O loudness. É sobre ele que vamos falar nesse artigo! O nome não é novo. Quem tinha aparelhos de CD, ou mesmo de vinil se lembra de um botão chamado loudness, que dava uma leve aumentada na pressão do som. Em geral, o botão dava um punch nos graves e uma leve compressão, para que o áudio não sumisse quando muito baixo, nem estourasse quando alto. Atualmente, loudness é um dos termos mais importantes do áudio profissional. Nomeia uma unidade de medida de áudio presente em todas as produções modernas, o LUFS. Mais que isso: envolve um padrão de finalização, exigido por plataformas como TV e serviços de streaming, cada um com diferentes especificações. Se você vai masterizar um trabalho, não importa para qual mídia, é importante dar atenção a esse assunto.

Em resumo, o que é loudness hoje?

  • Termo usado para se referir ao quão comprimida é a faixa
  • Fala-se de loudness ao falar do nível adequado de masterização para cada serviço de streaming ou loja. Hoje existe uma regulagem automática baseado em volume RMS, então não tem porque se masterizar (leia-se comprimir) em níveis mais extremos que esses, já que o volume da música será abaixado como um todo. O resultado é você soando pior e menos dinâmico do que as outras músicas, apesar de você estar mais comprimido.
  • LUKS é a unidade que designa níveis adequados de broadcasting, baseados no tempo de duração do programa e curva de audibilidade humana. É descrito em dBFS.

O que é loudness?

Em inglês, loudness significa “sonoridade”: é uma expressão que se refere ao atributo do nosso senso auditivo em perceber a escala de volume de um som, de silencioso a alto. Recentemente, Loudness passou a nomear esse padrão de intensidade adotado para produções de áudio, sejam elas musicais ou de cinema, TV e internet.

Esse padrão se baseia em unidades de medida de escala sonora usadas por anos e anos na indústria. Então, para entender sobre Loudness, precisamos dar uma rápida passada pelas mais importantes unidades de medida do mundo do áudio.

Decibéis

DBFS ou dB FS (Decibels relative to full scale ou Decibéis relativos à escala total é a unidade que mede a amplitude em sistemas digitais. A escala dBFS, diferente das outras vai de “0” a “-∞”. Ou seja, ela contempla somente valores negativos, sendo 0 dBFS o volume máximo que aquela escala aguenta. Acima disso, ocorre o que chamamos de clipagem. Ou seja, o som estoura, satura, fica distorcido, perde-se qualidade. Normalmente, durante uma gravação, isso não é desejado.

O dBFS é uma leitura digital do decibel, presente desde o surgimento do CD, que já era uma mídia digital. Atualmente toda gravação que será lançada em meios digitais, seja CD, seja em plataformas de streaming, passa por medições baseadas em dBFS em sua finalização. É no dBFS que se baseia o LUFS, Loudness Units Relative to Full Scale, de que falaremos daqui a pouco. Desde que inventaram o CD e passaram a medir as masters por dBFS a tendência nas produções sonoras foi de deixar tudo mais alto. Esse fenômeno contribuiu violentamente para o desenvolvimento da famosa Loudness War.

Atenção: não confunda dBFS com dBSPL. O dBFS só existe no computador e é usado na finalização do áudio. Já o dBSPL se refere ao Sound Pressure Level, medida que determina o grau de pressão sonora. Portanto, é utilizado para mensurar a reprodução sonora de caixas de som ou o volume de som chegando no ouvido das pessoas.

Loudness War

A “guerra das alturas” teve seu auge entre a segunda metade da década de 90 e a segunda metade dos anos 2000. Produtores e engenheiros de som no mundo todo passaram a aumentar o sinal de áudio progressivamente até quase chegar ao máximo – 0 dB full scale, lembra? Os CDs desse período ficaram mais e mais altos, assim como praticamente todo som produzido para TV, cinema e rádio. Aumentar o nível do sinal geral é basicamente diminuir a distância entre o peak e o RMS.

O que são peak e RMS?

Um sinal musical é marcado por diversas variações em sua frequência. O peak é o pico, ou seja, a altura máxima de potência atingida. Já o RMS (inglês Root Mean Square) é uma espécie de nível médio. “Pico” e “RMS” são termos que vem da engenharia e sempre foram usados em outras áreas do conhecimento. Nos fabricantes de equipamentos, adotaram a potência RMS como padrão para potência de caixas de som e potência de pico para amplificadores de potência. Com o advento do dB FS para finalização de áudio, o RMS e o peak passaram a representar também os níveis de dinâmica sonora.

Voltando ao Loudness War: se RMS é a (um tipo de) média e peak o máximo, você deve imaginar que o peak se refere aos momentos de punch da faixa, enquanto o RMS representa ao volume médio, uniforme, da música. As variações entre o RMS e o peak variam de acordo com a dinâmica da música, certo?

Foi exatamente aí que começou a guerra.

Para tornar o som mais alto, os engenheiros de som passaram a aumentar cada vez mais o RMS da faixa, a média do sinal de volume. E o peak não podendo ultrapassar o máximo de 0 db FS, abusaram dos compressores e limiters. RMS e peak ficaram cada vez mais próximos um do outro, reduzindo o Dynamic Range, ou alcance dinâmico, que é o intervalo proporcional entre os maiores e menores valores de um sinal sonoro. Olhando as tracks na tela, elas passaram a ser quase retas, com menos altos e baixos.

Confira esse quadro evolutivo dos níveis de loudness ao longo dos anos de ouro do CD:

  Ano > RMS

  • 1983     – 14 dBFS
  • 1991     – 12 dBFS
  • 1998     – 9 dBFS
  • 2003    – 6 dBFS
  • 2008    – 4 dBFS
  • 2010     – 2 dBFS

Na era do compact disc, diversos clássicos lançados originalmente em vinil foram reintroduzidos no mercado. Para isso, esses discos eram remasterizados sob os novos padrões e acabaram caindo também nessa guerra. Observe a mudança na taxa de Volume médio da canção Something, dos Beatles.

loudness level of track "something" by the beatles in 1983 loudness level of track "something" by the beatles in 1987

loudness level of track "something" by the beatles in 1993 loudness level of track "something" by the beatles in 2000

A mudança acarretada por essa tendência pode ser percebida ao longo da carreira de vários artistas, como por exemplo Metallica e Foo Fighters. Discos Calfornication (1999), do Red Hot Chilli Peppers e Back to basics (2006), da Christina Aguilera são citados, como exemplos negativos da Loudness War.

A música clássica, em nome da fidelidade, continua sem adotar compressores nas gravações digitais do gênero.

Mas por que a Loudness War é ruim?

  • O excesso de compressores, equalizadores, limiters e outros componentes usados para que o pico não ultrapasse 0 db FS. Isso “amassa” frequências e os picos, alterando qualidade final. O resultado soa menos dinâmico e sem picos. De tão intenso, cansa os ouvidos. Isso é mais perceptível na voz e na guitarra;
  • A presença do RMS sempre no alto desrespeita a dinâmica da interpretação e a expressividade da performance. Pobre em nuances, perde em feeling e intenção.
  • Em aparelhos de menor qualidade algumas frequências podem soar distorcidas.

O auge da produção de clipes musicais para a TV também influenciou o estouro da Loudness War. E foi exatamente das emissoras televisivas que partiram importantes primeiras iniciativas para uma normalização dos níveis de áudio. O crescimento da internet trouxe uma distribuição irrestrita de música que também exigiu uma discussão a respeito. Ao mesmo tempo, ficavam cada vez mais acessíveis novos suportes para reprodução de som, como notebooks, smartphones, tablets e diferentes caixas de som.

LUFs/LKFS

O LUFS (Loudness Units Relatives to Full Scale) é o padrão de intensidade criado para normalizar os níveis de áudio para TV e vídeo. Também é chamado de LKFS (Loudness Units K-Weighted relative to Full Scale) Surgiu após discussões iniciadas em 2006 no ITU (International Telecommunication Union). Elas foram progredidas pela ATSC (Advanced Television System Committee) e a EBC (European Broadcasters Union).

Conhecido como RMS inteligente, o LUFS utiliza a escala de dB FS como “régua”, isso é, seus valores são medidos em dB FS. Mas a unidade é definida a partir de cálculos logarítmicos. Esses cálculos consideram a percepção auditiva humana, valorizando frequências médias e altas acima de 2000 Hz, região mais sensível aos nossos ouvidos. Esses cálculos seguem em boa parte a curva de audibilidade humana, representada pela curva de Fletcher Munson. Desde a publicação do LUFS, vários canais de TV e emissoras de rádio em todo o mundo estipularam, em suas produções sonoras, uma margem baseada na medida. A maioria dos grandes serviços de streaming, como Spotify e Youtube, também estabeleceram seus padrões em LUFS.

Atualmente, é comum finalizar uma faixa em estúdio em diversas versões, uma para cada aplicação. Mesmo se a faixa for enviada para o streaming em um taxa diferente do padrão exigido, a plataforma irá convertê-la (o que pode ser prejudicial para a qualidade sonora).

  • Apple Music: – 16 LUFS
  • Youtube: – 14 LUFS
  • Tidal: – 14 LUFS
  • Spotify: – 14 LUFS
  • Netflix: – 23 LUFS

Pronto para finalizar sua produção? O loudness varia de uma plataforma para outra, mas o ideal é usar o conceito a serviço da sua música.