LUFS : Veja o nível de cada plataforma e masterize de acordo : Magroove Blog

LUFS : Veja o nível de cada plataforma e masterize de acordo

Agosto 15, 2019 • 13 min de leitura

Lembro que a masterização sempre foi um dos pontos problemáticos de quando comecei a produzir música eletrônica. Eu passava horas analisando as wave forms de músicas famosas tentando chegar em uma qualidade e volume próximos. Se você simpatiza com esse cenário, provavelmente já passou muitas horas analisando músicas de referência. Mas você sabia que nem todas as plataformas trabalham com as mesmas medidas de volume/compressão? Sabia que, idealmente, cada plataforma requer um tipo de masterização diferente? Pois sim, e a medida que define qual o volume apropriado para cada plataforma se chama LUFS. Wave forms super comprimidas não funcionam em todas as plataformas e hoje iremos entender porquê.

LUFS, masterize de acordo para o Spotify

Nível LUFS para cada plataforma

Cada plataforma trabalha com um valor diferente e é importante ficar atento quanto à isso durante o trabalho de masterização. Apesar de algumas delas trabalharem com valores iguais (ou semelhantes), certifique-se de pesquisar para confirmar esses valores, antes de finalizar sua master. Segue abaixo a lista de algumas plataformas e o nível LUFS que cada uma recomenda.

  • Apple Music: -16 LUFS
  • iTunes: -16 LUFS
  • YouTube: -13 LUFS
  • Spotify: -14 LUFS
  • Tidal: -14 LUFS

Se você está mandando a mesma master para todas as plataformas, sua música pode estar sendo “alterada” por algumas delas, e você pode nem estar ciente disso. Mas para darmos sequência, vamos aprofundar nosso conhecimento.

O que é LUFS

O LUFS foi adotado por volta de 2013, por plataformas de tv e rádio, como uma medida para padronizar os volume das faixas de áudio. A sigla vem do inglês e significa “Loudness Units Relative to Full Scale” e atualmente é usada pela grande maioria das lojas e serviços de streaming da internet. Ou seja, no mundo digital, o LUFS é a referência absoluta.

Nesse ponto você deve estar se perguntando o que o LUFS mede, exatamente, correto? A resposta é simples, ele é usado para medir o volume, usando um algoritmo semelhante ao nosso modo de escuta, lembrando muito a curva de Fletcher Munson. Em outras palavras, o LUFS valoriza as frequências médias e altas acima de 2000 Hz, região que é mais sensível aos ouvidos humanos, por isso a semelhança com a nossa escuta.

O termo “Loudness” em si (que é usado na sigla), é bastante vago, mesmo que a palavra se refira ao quão alta é a música ou algum componente dela. É justamente por esse motivo que foram criados vários jeitos objetivos de nos referir a “Loudness”. Um deles sendo a medida LUFS, que segue a escala de dBFS.

O que é dBFS, RMS e Volume de pico

Para entender melhor o LUFS e a sua aplicação é ideal que você conheça os termos abaixo. Isso por que, em resumo, dBFS representa a escala, enquanto o LUFS é uma métrica aplicada a algum áudio. Então o LUFS simplesmente é a representação de onde está a média RMS de certo áudio/ música na escala de dBFS. Para dar um exemplo rápido, digamos que uma música tem LUFS -10, isso significa que o ponto máximo de média de volume RMS que aquela música atingiu foi -10dBFS.

dBFS

Sigla do Inglês, que é a abreviação para Decibels relative to full scale. Em suma, o dBFS é uma unidade de medida para níveis de amplitude em sistemas digitais, como a modulação por código de pulso (PCM – ou Pulse-Code Modulation), que tem um nível de pico máximo definido.

RMS

Diferente do LUFS, o RMS é uma medida utilizada para definir o volume médio das faixas. O valor RMS (Root Mean Square) é geralmente usado para definir a magnitude de potência média emitida por algum dispositivo sonoro. Não iremos nos aprofundar mais nesse termo durante esse artigo, mas se quiser saber mais a respeito, visite o tópico relacionado a RMS na Wikipedia.

Volume de pico

Volume de pico é diferente de loudness. Por exemplo, você pode ter um volume de pico alto, mesmo sem ter um valor de RMS alto. Isso se deve por que o volume de pico pega como referência o elemento da mix que atinge o pico mais alto no peak meter, enquanto o RMS calcula a potência média. Vamos pegar um exemplo prático. Digamos que você tem um instrumento de bateria em sua mix, o qual atinge picos altos, então mesmo tendo um volume de pico alto, ainda assim, a loudness (ou RMS) da sua faixa poderá ser baixo.

O que é normalização e como o LUFS é medido

Seguindo a nossa explicação, vamos entender agora o que é normalização, e qual é seu papel nisso tudo.

De forma geral, “normalizar” é subir ou descer o áudio/ música inteira até que a sua métrica (que pode ser a média RMS ou o pico (peak)) atinja o valor desejado. Por exemplo, é comum, ao digitalizar gravações de vinyl ou ao passar CDS antigos para o computador, que as gravações não tivessem os picos batendo em 0dBFS. Por isso, a gravação é normalizada, para que o pico mais alto bata em 0dBFS. Feito isso, a música não é comprimida nem um pouco (nenhum pico foi comprimido ou ceifado, ou seja, ela está idêntica ao que era só que inteira mais alta).

Outro estilo de normalização é o por RMS, que é onde entra o LUFS. Eu faço a análise e determino qual é a média RMS de toda a minha música. Geralmente, em momentos calmos essa média tende a ser mais baixa, enquanto em refrões essa média sobe. Na normalização por RMS, pega-se o instante que essa média RMS foi a mais alta durante a música toda e normaliza-se por aquele instante. Por exemplo, se o momento mais alto teve de média -12dBFS, falamos que aquela música tem -12 LUFS.

Diferença entre LUFS, LKFS e LU

A compreensão mais aprofundada do LUFS é essencial para os profissionais da música. Atualmente, diversas plataformas trabalham com padrões que precisam ser seguidos. Do contrário, você corre o risco de ter a qualidade do seu material comprometido em cada uma dessas plataformas, como já mencionado anteriormente. Mas a compreensão do LUFS, por si só, não é suficiente. Agora que você já tem uma base sobre o tema, vamos entender quais as diferenças e de que forma o LUFS se relaciona com o LKFS e o LU.

LKFS

Sigla do Inglês, que representa Loudness, K-weighted, relative to full scale. Em Português, “Sonoridade (ou Volume), pesado (medido), em relação à escala completa. O termo em si parece complicado, mas tem uma definição relativamente simples. LKFS é um padrão de volume projetado para permitir a normalização dos níveis de áudio para a transmissão de TV aberta e outros vídeos.

O LKFS, que é sinônimo do LUFS, foi introduzido no EBU R128. O EBU R128 é um conjunto de diretrizes para a normalização do volume e níveis máximos de sinais de áudio permitidos. Foi inicialmente recomendado pela União Européia de Radiodifusão em 2010 e, mais recentemente, revisado em 2014. Apesar disso, o EBU R128 usa a medida LUFS, que é compatível com convenções internacionais de nomenclatura.

A medida LKFS é usada pela ITU BS.1770 e ATSC A/85, que, da mesma forma como o EBU R128, são conjuntos de recomendações para padronização e normalização de áudio. Enquanto ITU e ATSC recomendam o nivelamento das faixas de áudio para o broadcasting em -24LKFS, a EBU estabeleceu esse valor em -23.

Não vamos explicar de forma detalhada o que cada uma dessas diretrizes fala. Até por que, o artigo ficaria imenso. Mas vamos deixar acima alguns links sugeridos para você que quer (ou precisa) se aprofundar no assunto.

LU

LU é a abreviação do termo Loudness Unit, do Inglês, cuja tradução é Unidade de Sonoridade/ Volume. Primeiramente temos que estabelecer que a unidade LU é diferente de dB (decibéis). Os decibéis medem o nível de pressão do ar gerado pelo som. Já as LU são uma unidade estabelecidas para o trabalho de áudio que permitem que uma pessoa controle o volume de saída resultante de um áudio. Em termos práticos, uma LU é igual a um decibel de pressão de ar gerado pelo áudio.

True Peaks e ferramentas que ajudam a tratar e evitar

Existem diversos plugins disponíveis no mercado que ajudam a identificar e tratar problemas com, por exemplo, true peaking. A imagem mostra uma dessas ferramentas em funcionamento.

O que é “True Peak” e como ele interfere na finalização dos áudios

De forma geral, a indústria da música não tem uma prática amplamente aceita para padronizar o nível de pico de áudio (True Peak). Por outro lado, como vimos anteriormente, a indústria de TV e cinema tem diretrizes muito rígidas quanto à isso. Mas o que é  True Peak e no que ele interfere? Vou tentar explicar de uma forma bem simples.

Primeiramente temos que entender onde o True Peak é gerado, para isso, vejamos o cenário abaixo.

Após finalizar a faixa de áudio na DAW de sua preferência você dá início ao processo de exportação. Nesse processo sua DAW converte todos os arquivos em um único arquivo digital (geralmente wav). Para que esse arquivo possa ser reproduzido em sistemas de som ele precisa ser convertido de volta ao formato analógico. Antes da conversão, esse sinal de áudio tem um aspecto semelhante ao desenho de uma escada. (a gravação digital não tem resolução infinita para a curva captada ser perfeita; inevitavelmente trabalhamos com uma bit depth e uma sample rate).

Agora, como parte dessa conversão, um filtro de reconstrução é aplicado para “arredondar” o sinal de áudio. O objetivo disso é para que nós tenhamos uma experiência de escuta mais suave. No entanto, esses filtros podem causar pequenas variações nos níveis de áudio. Isso pode se tornar um problema especialmente para sons que estão muito próximos ao marco dos 0dBFS, que podem tentar ultrapassar essa marca e distorcer.

Algumas aparelhagens de som, especificamente desenvolvidas para estúdios, irão compensar por esse problema. No entanto, aparelhagens de som “caseira” podem fazer com que o som saia distorcido. É por isso que, uma faixa de áudio pode soar boa no estúdio, mas pode soar distorcida em outros dispositivos comuns.

Cuidados durante a masterização para evitar o True Peaking

Existem várias maneiras de prevenir true peaks. O peak meter nativo da maioria das DAWs geralmente não é ideal para isso. No entanto, existem ferramentas que podem ajudar a monitorar e prevenir true peaks nos seus áudios. Uma busca simples no Google pode mostrar alguns bons resultados. Minha dica aqui é para sempre pesquisar e testar (quando possível), antes de adquirir qualquer feramenta.

Excesso de compressão, por que evitá-lo

Comprimir uma faixa de áudio significa que você irá reduzir os seus picos e, aproveitando aquele espaço que se abriu, aumentar o volume geral dela. Esse processo é geralmente feito por Limiters, que são plugins que não deixam o áudio passar de certo volume (o 0dbFS, por exemplo). Isso geralmente é feito para aumentar o volume das faixas, já que esse volume está ligado ao RMS, e não aos seus picos. Infelizmente, a indústria do áudio digital abusa dos compressores, que fazem todo o volume da música subir para ser esmagado na barreira do zero dB. Esse processo faz subir o volume de tudo mas mantém um teto fixo, consequentemente, sobe a média do volume.

Mas cuidado com o uso exagerado dos compressores (over-compressing). Esse processo pode gerar uma série de problemas para a suas faixas de áudio, como por exemplo:

  • Falta de dinâmica – Um ouvinte comum pode não perceber, mas a música em si será menos emocionante. Dessa forma, os ouvintes provavelmente não vão curtir a música, mesmo sem saber o por quê!
  • Inércia ou “falta de vida” – Relacionado ao ponto acima. Muita compressão leva à ausência de dinâmica. Como resultado você tem a impressão de que a música “perdeu a vida”. Se você trabalha com música, imagino que saiba o que eu quero dizer.
  • Compressão constante – Apesar de existirem exceções, certifique-se de que o medidor de redução de ganho volte ao zero várias vezes.
Nivel em LUFS de diferentes faixas de áudio

A screenshot mostra a wave form de duas faixas de áudio. O resultado da compressão interfere no diferente nível (em LUFS) de cada uma delas.

Lufs, shuffle e a Loudness War

Muitos de vocês devem estar familiarizados com o termo shuffle, correto? Pois bem, o shuffle só se tornou possível graças à chegada das músicas ao ambiente digital. Se você era da época dos vinyls, K7s e até os primórdios dos CDs vai lembrar que essa funcionalidade não existia. Com a chegada do shuffle, músicas de diferentes artistas, em diferentes finalizações (LUFS/volume RMS) passaram a poder ser consumidas uma após a outra.

Ao compararmos essas duas gravações, devido a um fenômeno psicoacústico, percebemos a gravação mais alta em RMS como sendo melhor do que a mais baixa. Na briga por tomar proveito desse fenômeno e querer soar melhor que o artista ao lado, produtores começaram a comprimir cada vez mais suas músicas. Basicamente, isso desencadeou o que chamamos de Loudness War. Uma corrida para deixar sua música o mais alta/ comprimida possível para que ela fosse percebida como “melhor”.

A luz no fim do túnel

Numa tentativa de resgatar a parte artística da música que estava sendo perdida com a ultra-compressão, nomes importantes apareceram a favor do uso mais leve de compressores durante a finalização dos áudios. Entre eles Bobcats, que criou o padrão “K” (K-8/K-10/K-14). Mas não vamos confundir esse “K” com o de “K-weighlifting (LKFS)”. O “K” de Bobcats, acompanhado da representação numérica, representa níveis de média RMS de finalização. De uma forma simplificada, a escala de Bobcats finge que o 0dBFS é o valor da escala dele. Por exemplo, a K-8 finge que o -8dBFS é o 0dB. E claro, você deve trabalhar com todas as restrições de 0dB fingindo ser no -8dBFS. Isso serve para manter as mixes mais dinâmicas.

Para dar um fim à disputa, movimentos de anti-loudness começaram a surgir, e já tem até uma certa força na indústria da música. Atualmente, muitas plataformas já tem limites e auto-regulagem por loudness para músicas que passam de uma certa média de RMS. Dessa forma, a diferença não será crítica durante o shuffle, a produção não precisará sacrificar informação valorosa só para conseguir volume a experiência do usuário não será prejudicada.

Em conclusão

Infelizmente, a maioria dos produtores ainda trabalha sob essa concepção de que o loudness é mais importante que dinâmica. De forma que, quem acaba perdendo com essa “guerra” é o consumidor final do produto. Que este artigo sirva também como aviso e apelo aos produtores. A nossa visão sobre o que é música de qualidade está tão distorcida quanto a música em si, então é hora de darmos um basta. Esperamos que toda a informação contida nesse artigo ajude você a preparar suas músicas para as diferentes mídias. Mas mais importante, que você saia desta página focado em produzir músicas de qualidade, e não apenas com o volume alto.